MPF pede que traficante boliviano extraditado irregularmente para o Brasil seja libertado

O Ministério Público Federal no Mato Grosso do Sul (MPF/MS) pediu, por meio de habeas corpus (HC), a liberdade do cidadão boliviano Jorge Suye Romero, sustentando que ele foi alvo de um ato de entrega ilegal ao Estado brasileiro. Preso em flagrante por tráfico de cocaína na região de Corumbá, Jorge Romero tentou fugir para […]

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28 set 2016 Por Redação 8h13
Mobilização foi realizada na manhã desta quinta-feira / Fotos: Erik Silva

Boliviano foi flagrado com cocaína no Posto de Fiscalização da Receita Federal, mas conseguiu fugir à pé para o lado boliviano da fronteira / Foto: Arquivo Folha

O Ministério Público Federal no Mato Grosso do Sul (MPF/MS) pediu, por meio de habeas corpus (HC), a liberdade do cidadão boliviano Jorge Suye Romero, sustentando que ele foi alvo de um ato de entrega ilegal ao Estado brasileiro. Preso em flagrante por tráfico de cocaína na região de Corumbá, Jorge Romero tentou fugir para o outro lado da fronteira, mas foi entregue pela polícia boliviana à Polícia Federal brasileira em seguida. Para o MPF, a Bolívia somente poderia ter entregue o cidadão estrangeiro ao Brasil por meio de um ato formal de extradição.

Em uma fiscalização de rotina realizada no Posto Fiscal da Inspetoria da Receita Federal em Corumbá,  na fronteira entre Brasil e Bolívia, Jorge Romero foi abordado, portando 3.155 gramas de cocaína. Após um descuido dos agentes de fiscalização, ele acabou conseguindo fugir, correndo a pé até a linha de fronteira para entrar na Bolívia. Ao perceber a fuga, a polícia boliviana o deteve e ele foi entregue à Polícia Federal brasileira, que o prendeu em flagrante e o levou à Delegacia de Corumbá para interrogá-lo. E algumas horas depois, em audiência de custódia, a Justiça Federal em Corumbá converteu a prisão preventiva de Jorge Romero em prisão preventiva.

O MPF, analisando o caso, de início requereu o relaxamento da prisão preventiva, sustentando que o ato de entrega de Jorge Romero violou frontalmente as normas de cooperação internacional vigentes entre Brasil e Bolívia, e que, em razão desta ilegalidade, a prisão em flagrante realizada pela Polícia Federal brasileira, assim como a prisão preventiva que dela decorreu, foram invariavelmente contaminadas, tornando impositiva sua soltura, para não mais prolongar o constrangimento ilegal imposto ao cidadão estrangeiro.

Como este pedido inicial foi negado pelo juízo federal da 4ª Subseção Judiciária do Mato Grosso do Sul, contra essa decisão, o MPF, então,  impetrou HC para cessar a restrição ilegal ao direito de liberdade de Jorge Suye Romero, efetivada em contradição com as normas constitucionais e legais em vigor.

“Extradição por empurrão” – O procurador da República Yuri Corrêa da Luz, que assina o HC, destaca que a Polícia Federal até procurou observar os diversos preceitos que regem a prisão em flagrante de Jorge Romero, mas que isso ocorreu “tão somente depois que as autoridades policiais bolivianas já haviam praticado um ato ilícito: a entrega, sem a observância dos procedimentos devidos, de seu nacional Jorge Suye Romero à Polícia Federal brasileira”.

Para ele, uma das vias legais pelas quais a Bolívia pode entregar um cidadão ao Brasil seria por meio de um ato tradicional de extradição. Ele explica que a polícia boliviana teria de ter levado em conta que, segundo seu ordenamento doméstico, os atos de extradição são – à semelhança do que ocorre no Brasil – de competência exclusiva de seu Supremo Tribunal de Justicia, de acordo com sua Constituição em vigor. “E assim, por não terem observado tal regra procedimental, as autoridades policiais bolivianas acabaram usurpando uma competência exclusiva da Suprema Corte de seu país, tornando irregular a apresentação de Jorge Suye Romero à Polícia Federal brasileira”, sustentou.

O HC impetrado sustenta que a entrega em análise constituiu a chamada “extradição por empurrão” ou “extradição de fato”, uma forma ilegal de transposição de um sujeito, de um Estado a outro, sem a observância dos regramentos procedimentais e materiais pertinentes ao processo extradicional. E para o procurador da República impetrante, essa prática não pode ser admitida pelo Estado brasileiro, “seja porque violadora da soberania do Estado boliviano, que o Brasil se comprometeu a respeitar, seja porque violadora de diversos direitos fundamentais previstos na ordem interna brasileira e na ordem jurídica internacional”.

No pedido de HC, Yuri Corrêa da Luz cita análise do secretário de cooperação internacional, Vladimir Aras, sobre atos ilegais como a “extradição por empurrão”, em que chama a atenção para a “principiologia que o país abraçou no artigo 4º da Constituição Federal, que consagra o respeito à soberania estrangeira (não-intervenção) e a prevalência dos direitos humanos, inclusive o direito de qualquer pessoa não ser presa sem o devido processo legal (art. 5º, LIV, Constituição Federal)”.

Segundo o procurador da República, a violação destes direitos torna urgente a restituição da liberdade de Jorge Romero, até mesmo pelas potenciais repercussões diplomáticas que esta prisão pode vir a ter, caso o Estado boliviano vislumbre que o Estado brasileiro estaria mantendo um cidadão seu segregado em violação às regras de cooperação internacional que vigoram entre estes dois países.

Mandado de Detenção e Entrega – A Secretaria de Cooperação Internacional (SCI) tem trabalhado no âmbito do Mercosul para que seja aprovado o Acordo de Foz de Iguaçu de 2010 sobre o Mandado de Detenção e Entrega, que facilitaria o processo de extradição entre os países do bloco. Atualmente, o Mercosul tem cinco membros e a Bolívia está em processo de adesão.

Para o secretário de cooperação internacional, Vladimir Aras, “a iniciativa do colega Yuri Luz é louvável e põe na berlinda um tema que precisa ser urgentemente resolvido pelos órgãos de soberania dos países da região, para que a cooperação fronteiriça possa ocorrer de acordo com as constituições, as leis e os tratados, num ambiente de proteção da segurança pública e dos direitos fundamentais de todos”. (As informações são da Ascom MPF).

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