Temperatura no Pantanal de MS pode subir até 5,8ºC e afetar fauna e flora

Alerta foi feito em seminário sobre vulnerabilidade à mudança do clima.

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01 dez 2016 Por G1 11h46
Diversidade é um dos aspectos do Pantanal / Foto: Erik Silva

Alerta foi feito em seminário sobre vulnerabilidade à mudança do clima. / Foto: Erik Silva

A temperatura nos 15 municípios de Mato Grosso do Sul que estão dentro da região do Pantanal pode aumentar de 4,9ºC a 5,8ºC entre 2041 e 2070 e o volume de chuvas cair neste período em até 19,3%, o que pode afetar sensivelmente a flora e a fauna da região, principalmente, os peixes. O alerta foi feito nesta quarta-feira (30), em Campo Grande, no seminário “Indicadores de Vulnerabilidade à Mudança do Clima”, promovido pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz).

A projeção para a região pantaneira foi apresentada dentro de um amplo estudo realizado pela  Fiocruz em Mato Grosso do Sul e outros cinco estados: Paraná, Espírito Santo, Pernambuco,  Maranhão e Amazonas. A pesquisa compõe um painel de todas as regiões do país que avalia os impactos que podem ocorrer com as mudanças climáticas globais.

Neste trabalho, a entidade utilizou cenários futuros calculados pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), além de informações de cada município sobre preservação ambiental, população, saúde, condições socioeconômicas e incidência de doenças como dengue, leptospirose, leishmaniose, diarreia e acidentes com animais peçonhentos.

Em Mato Grosso do Sul, o estudo avaliou a vulnerabilidade à mudança do clima nos 79 municípios do estado, revelando dados como projeção de aumento de temperatura, de redução de volume de chuvas, crescimento dos dias de estiagem e de incremento das doenças associadas ao clima, em razão da alteração do ciclo reprodutivo de insetos transmissores, como, por exemplo, o mosquito Aedes aegypti, vetor da dengue, da zika e da chikungunya.

No caso da região pantaneira, o trabalho mostrou que o município de Corguinho é o que pode registrar maior aumento de temperatura no bioma e em todo o estado, 5,8ºC, enquanto que as menores elevações devem ocorrer em Ladário e Porto Murtinho, 4,9ºC. Por outro lado, ainda no Pantanal, mas em Coxim e Rio Verde, devem ocorrer as maiores quedas no volume de chuvas, até 19,3%.

A bióloga da Fiocruz Isabela de Brito Ferreira, que fez a coleta dos dados em Mato Grosso do Sul para a pesquisa e utiliza os dados para sua tese de mestrado, explica que como a região do Pantanal tem um clima úmido, o aumento de temperatura e a redução da precipitações pode provocar uma mudança no regime hídrico, afetando diretamente as espécies que dependem do ciclo das águas, os peixes.

Além do Pantanal, o estudo revelou ainda outras projeções preocupantes para o restante do estado. No que se refere a temperatura, a pesquisa apontou que municípios do norte e do leste de Mato Grosso do Sul devem estar entre os mais impactados, com aumento de até 5,7ºC em cidades como Paranaíba, Aparecida do Taboado e Selvíria, enquanto que os do sul, seriam os menos afetados, com incremento de 4,9ºC em Caracol e 5ºC em Paranhos. Já para a capital, Campo Grande, a projeção é que a temperatura poderá subir até 5,4ºC.

Uma outra informação da pesquisa é quanto a de uma alteração no regime de chuvas do estado. Novamente o norte foi citado como a região que deve sofrer o maior impacto, com redução das precipitações em até 19,3% nos próximos 25 anos. No sul a mudança seria mais branda, com queda, por exemplo, de 2,3% em Coronel Sapucaia e de 3,2% em Aral Moreira. Em Campo Grande, a diminuição ficaria em torno dos 8,3%.

O coordenador do projeto, Ulisses Confalonieri, explicou que a pesquisa utilizou os cenários mais extremos do INPE no que se refere as projeções sobre temperatura e redução de volume de chuvas, justamente para alertar a população e as autoridades quanto a importância da discussão sobre as mudanças climáticas. Ele comenta que com base nestas informações foi criado um software que está em fase de ajustes e será disponibilizado aos gestores públicos como uma ferramenta de planejamento das políticas públicas para o setor.

Um exemplo é o da análise de como as mudanças climáticas podem influenciar a dinâmica de algumas doenças, já que fatores como temperatura e volume de chuvas interferem no ciclo reprodutivo de insetos transmissores de enfermidades como a dengue e leishmaniose, além influenciarem também na disseminação de doenças intestinais e nos ataques de animais peçonhentos, como aranhas, escorpiões e cobras.

De acordo com a pesquisa, Campo Grande é a cidade do estado como maior vulnerabilidade as doenças associadas ao clima, em razão da alta incidência de enfermidades e elevado número de acidentes relacionados a animais peçonhentos, enquanto que Santa Rita do Pardo, Jateí e Ivinhema, seriam os menos afetados.

Para o coordenador estadual de Vigilância em Saúde Ambiental, Karyston Adriel, o estudo é um instrumento fundamental para que os gestores tomem uma decisão rápida e com o maior número possível de informações nas ações de prevenção e de combate a doenças relacionadas ao clima. “Temos que ter consciência, cada vez mais, que as ações e políticas públicas na área da saúde estão correlacionadas a outras áreas, como o meio ambiente, e utilizar essas informações no nosso planejamento”, explicou.

Na avaliação do secretário estadual de Meio Ambiente e Desenvolvimento Econômico, Jaime Verruck, as informações apresentadas nesta quarta-feira servem de alerta, mas não consideram a importância das ações que vem sendo executadas para mitigar as emissões dos gases que provocam o efeito estufa e influenciam nas mudanças climáticas.

“O cenário apresentado é o mais extremo possível, mas temos que levar em conta também o que vem sendo feito para que não cheguemos a esse ponto. Mato Grosso do Sul, por exemplo, criou um grupo técnico, o Proclima, que estabeleceu metas para o estado alinhadas com as definidas na COP-21 (Conferência das Nações Unidas sobe as Mudanças Climáticas), o que representa os compromissos do estado, em relação aos do Brasil, para mitigar as emissões. Um deles é o Terra Boa, que vai recuperar 2 milhões de hectares de áreas degradas, de um total de 15 milhões que o Brasil se comprometeu”, detalhou.

Outro aspecto analisado por Verruck é quanto a importância da tecnologia para auxiliar no processo de adaptação as mudanças climáticas. “Neste sentido, a Embrapa tem um papel fundamental, pois vem desenvolvendo vários estudos dos impactos sobre diversas culturas, de modo que se possa desenvolver variedades mais adaptadas as novas condições climáticas, assegurando a viabilidade futura da nossa produção agrícola”, explicou, completando, entretanto, que apesar da preocupação local o assunto é uma demanda mundial. “Mato Grosso do Sul está fazendo a sua parte, mas não podemos esquecer que o restante do Brasil e outros países também tem de fazer a sua”, concluiu.

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